A questão da sustentabilidade na indústria náutica está ganhando destaque, especialmente com o aumento das preocupações sobre a qualidade da água. O relatório “Falência Hídrica Global”, elaborado pela Universidade das Nações Unidas, destaca que práticas produtivas intensivas, somadas às mudanças climáticas, comprometem os recursos hídricos em escala global. Nesse cenário, a indústria náutica, muitas vezes subestimada em termos de impacto ambiental, começa a ser reavaliada, especialmente em relação aos revestimentos químicos utilizados em embarcações.
As tintas anti-incrustantes, empregadas para evitar o acúmulo de organismos marinhos, surgem como um ponto crítico. Embora proporcionem maior eficiência e reduzam a necessidade de manutenção, esses produtos liberam compostos químicos ao longo do tempo, podendo contaminar ambientes aquáticos. Pesquisas recentes, especialmente um estudo da Chalmers University of Technology, mostraram que biocidas e metais pesados, como cobre e zinco, continuam a vazar em quantidades significativas, aumentando a contaminação de áreas costeiras e portuárias.
Com essa realidade em mente, empresas do setor náutico começaram a adotar práticas mais sustentáveis para mitigar seus impactos. Raquel Oliveira, CEO da Fluvimar, uma companhia brasileira pioneira na utilização de garrafas PET como sistema de flutuação, ressalta que a indústria está passando por uma transformação. As iniciativas incluem a integração de tecnologias menos agressivas e o uso de materiais reciclados na produção de embarcações.
Na Fluvimar, a estratégia envolve a substituição de adesivos por pintura, que apresenta maior durabilidade e reduz a geração de resíduos. A implementação de estufas de pintura com sistemas de filtragem é outra medida eficaz, que impede a dispersão de partículas nocivas no meio ambiente. A empresa também modernizou sua linha de produção, reduzindo o tempo de secagem de 24 horas para aproximadamente 60 minutos. Isso não só melhora a eficiência operacional, mas também diminui o consumo de recursos energéticos.
Um aspecto inovador é a substituição do isopor na estrutura das embarcações por garrafas PET, resultando em um aproveitamento de cerca de três toneladas de plástico por ano, transformando resíduos em matéria-prima útil. Essa abordagem não apenas contribui para a sustentabilidade, mas também demonstra como as empresas podem se adaptar às exigências ambientais atuais.
Oliveira destaca que o momento exige mudanças rápidas e significativas. Com a Fluvimar operando há mais de 30 anos e concentrando cerca de 150 colaboradores, a empresa projeta expandir sua produção e explorar mercados internacionais até 2026. O foco em soluções sustentáveis e a determinação em integrar mecanismos mais limpos podem não apenas fortalecer a posição da empresa, mas também inspirar outras na indústria a repensar suas operações em prol de um futuro menos impactante para o meio ambiente.
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