Nova pesquisa da Go Magenta revela que 64% dos brasileiros preferem conteúdos esportivos nacionais, enquanto gêneros como ficção científica, horror e suspense ainda são dominados por produções estrangeiras.
O orgulho brasileiro está em alta. Ele aparece nas roupas, nas músicas, nas redes sociais, nas marcas e até na estética que ganhou o apelido de “Brasilcore”. Mas, quando o assunto é streaming, esse sentimento nacionalista ainda parece ter um limite bem claro: o brasileiro vibra com o que é do Brasil no esporte, mas ainda busca a chancela de fora quando escolhe séries e filmes de ficção.
É o que aponta uma nova pesquisa da Go Magenta, consultoria de pesquisas e insights, que analisou as preferências de consumo audiovisual em diferentes gêneros. Segundo o levantamento, 64% dos brasileiros preferem conteúdos esportivos nacionais, contra 36% que escolhem produções internacionais nesse segmento. O dado ganha ainda mais força com a aproximação da Copa do Mundo, período em que a identidade nacional costuma ganhar espaço na mídia, nas conversas e no consumo de conteúdo.
O resultado não chega a surpreender. No Brasil, o esporte, especialmente o futebol, é mais do que entretenimento: é parte da cultura popular, da memória afetiva e da rotina de milhões de pessoas. Assistir a uma partida, acompanhar bastidores de atletas ou consumir documentários esportivos nacionais não é apenas ver conteúdo; é se reconhecer na tela.
Reality show e documentário também têm força nacional
Além dos esportes, outros formatos brasileiros também aparecem bem posicionados na pesquisa. Os reality shows nacionais registram 55% de preferência, enquanto os documentários brasileiros chegam a 45%.
Esses gêneros têm um ponto em comum: eles aproximam o público da própria realidade. O brasileiro tende a se interessar mais por histórias, personagens, costumes e conflitos que parecem familiares. É o caso dos realities, que há anos movimentam redes sociais, conversas de bar, grupos de WhatsApp e portais de notícia.
Já os documentários entram em uma área parecida: quando tratam de temas nacionais, crimes, acontecimentos históricos, celebridades, esportes ou cultura popular, conseguem despertar curiosidade justamente por revelar algo que o público sente como próximo.

Na ficção, o brasileiro ainda prefere olhar para fora
A mesma pesquisa, porém, mostra um contraste forte. Quando o assunto muda para gêneros como comédia, true crime, romance, drama, ficção científica, horror e suspense, o público brasileiro ainda demonstra preferência por produções estrangeiras.
O caso mais evidente está nos gêneros de ficção científica, horror e suspense. Segundo o levantamento, apenas 12% dos brasileiros preferem produções locais nessas categorias. Ou seja, 88% ainda escolhem obras estrangeiras.
Esse comportamento revela uma espécie de validação externa. Muitas vezes, uma produção brasileira só passa a ser vista como “boa o suficiente” quando conquista repercussão internacional, entra em uma plataforma global ou vira assunto fora do país.
É como se o público pensasse: se fez sucesso lá fora, então vale a pena assistir aqui também.
Brasilcore ainda não dominou as telas
A pesquisa também mostra que o movimento de valorização do Brasil ainda não atravessou completamente o entretenimento audiovisual. O Brasilcore pode estar forte na moda, na música e nas redes sociais, mas no streaming o cenário é mais dividido.
O brasileiro levanta a bandeira quando o assunto é seleção, consome reality nacional e se conecta com histórias reais do país. Mas, na hora de escolher uma série de ficção científica, um filme de terror ou um suspense, a preferência ainda costuma ir para produções dos Estados Unidos, Europa ou outros mercados consolidados.
Isso cria um desafio importante para a indústria audiovisual brasileira. Existe interesse pelo conteúdo nacional, mas ele parece mais forte quando o formato conversa diretamente com identidade, cotidiano e pertencimento. Já nos gêneros de ficção, o público ainda associa grandes produções, efeitos, narrativas e qualidade técnica ao mercado internacional.
Brasil não está sozinho nesse comportamento
O estudo da Go Magenta também aponta que esse padrão não é exclusivo do Brasil. Países como Argentina, Chile, Colômbia e México seguem uma lógica parecida: conteúdos esportivos e realities locais têm força, enquanto drama, horror e aventura continuam perdendo espaço para produções estrangeiras.
A diferença aparece quando a comparação é feita com países como Canadá e Austrália. Segundo a análise, esses mercados apresentam uma relação mais madura com a própria produção cultural, com preferência por conteúdos locais em uma variedade maior de gêneros.
No caso brasileiro, ainda existe espaço para crescimento. O país tem talento, boas histórias e uma cultura rica, mas ainda depende, em muitos casos, de plataformas globais e reconhecimento externo para transformar produções nacionais em fenômenos de massa.
Oportunidade para o mercado audiovisual
Para produtoras, plataformas de streaming e marcas ligadas ao entretenimento, o levantamento traz um recado claro: o público brasileiro não rejeita o conteúdo nacional. Pelo contrário, ele consome com força quando encontra identificação, qualidade e relevância cultural.
Nesse ponto, a assessoria de imprensa também ganha papel estratégico. Para que uma produção nacional deixe de ser apenas mais um lançamento no catálogo e passe a ser percebida como relevante pelo público, é preciso construir narrativa, gerar conversa, conquistar espaço em veículos de mídia e aproximar a obra de temas que já fazem parte do debate cultural. Em um mercado em que a validação externa ainda pesa, uma boa estratégia de comunicação pode ajudar filmes, séries, documentários e produtoras brasileiras a ganharem autoridade antes mesmo de dependerem do aval internacional.
No fim, o brasileiro quer se ver na tela. Mas, em muitos gêneros, ainda precisa acreditar que aquilo que é feito aqui pode competir com o que vem de fora.
Por enquanto, a conclusão da pesquisa resume bem o momento: vai Brasil, mas principalmente nos esportes.

