Negócios

Trabalho duro ou trabalho bom? Por Alexandre Pellaes

Já faz algum tempo, eu tinha começado a escrever um texto e o deixei maturando nos meus rascunhos. O texto é sobre por que nós valorizamos mais o sucesso que vem do trabalho pesado do que o sucesso que vem do bom trabalho, o trabalho bem feito…

Eu queria pesquisar mais sobre o tema e ir atrás de referências parrudas, mas eu acabei de ver uma publicação que dizia:

“Vitória sem luta é triunfo sem glória”

Oiiiiiii????

Isso me trouxe imediatamente de volta a esse texto. Então resolvi ao menos fazer uma prévia.

Por que não haveria glória em conseguir sucesso sem luta, sem sofrimento, sem embate? E se fosse possível desenhar um trabalho feliz, que resultasse em uma carreira ascendente, onde você realiza o seu melhor, é bem pago e atinge o sucesso no curso espontâneo da sua intenção colocada em ação? Não seria legal demais? Não é isso que a gente fica pedindo o tempo todo e buscando nas mais diversas formas?

A gente não quer sofrer, mas dá muito valor ao sofrimento.

Que complicado…

É natural que a gente tenha empatia pelas pessoas que se esforçam e ralam muito em seus empregos para conseguirem atingir seus objetivos, diante de tantos desafios (políticos, sociais, econômicos, etc).

O que me causa estranheza é gastarmos nossa energia cultuando o trabalho duro, ao invés de buscarmos formas de ter o bom trabalho reconhecido. (E eu vou compreender se você ficar irritado com essa última frase, porque a resposta automática é “eu não cultuo o trabalho duro, eu sou obrigado a trabalhar duro” etc. etc. – mas eu nem estou falando do que vivemos como experiência real e sim do que pregamos e idolatramos – estou expressando minha opinião e não escrevendo uma verdade universal no mármore do inferno).

Todos nós queremos ter reconhecimento e retorno sobre nossas ações produtivas. Todos nós queremos realizar um bom trabalho. Nenhum de nós quer deliberadamente sofrer. Então, por favor, PARE de falar do sofrimento como se fosse o único caminho da libertação, do crescimento, da iluminação superior.

Nada cai do céu. Tem que trabalhar, tem que agir, tem que buscar conhecimento, tem que se esforçar. Nenhuma novidade nessa parte. Só não precisa sofrer. Talvez você preferisse algo diferente. Preferência não é sofrimento. E você não precisa sofrer para ter sucesso. Vamos tirar essa imagem da nossa cabeça (e do coração também).

Por trás desse discurso de superação e sucesso sofrido e chorado largado como moda sertaneja barata estão três venenos sociais:

– a frustração

– a inveja

– a autopiedade

A frustração por não ter sucesso ainda. A inveja porque alguém já tem sucesso e talvez nem tenha sofrido “tanto” (quanto você acha que alguém deveria sofrer para ter sucesso). A autopiedade porque a culpa não é sua. O sistema é bruto. Você tá sofrendo, mas um dia a coisa vira. Você é mais um sofredor. Que delícia pertencer!

Chega. Abaixo o culto excessivo ao hard work!

Vamos mudar o rumo dessa prosa. A partir de agora, vamos buscar valorizar o bom Trabalho. (sim, esse eu escrevo com T maiúsculo)

  • Vamos colocar nossa energia produtiva em ação sem desculpas e sem bloqueios.
  • Vamos ser nossos maiores fãs. Aqueles que se deleitam com cada pequena realização nossa.
  • Vamos ter orgulho das pessoas que são bem-sucedidas sem trabalhar 12/13/14 horas por dia.
  • Vamos nos espelhar em exemplos de quem tem equilíbrio emocional e não apenas financeiro.
  • Vamos falar mais de formas produtivas e de pequenas conquistas que não custaram um casamento, ou um filho abandonado.
  • Vamos tomar as rédeas da nossa vida profissional!
  • Vamos ter foco e fazer o que falamos que vamos fazer! (é dureza, eu sei!)
  • Vamos ter orgulho de quem nós somos e não do que nós temos.
  • Vamos reconhecer que Trabalho é uma forma de amor que se torna real quando nossa intenção vira ação.
  • Vamos descobrir valor e beleza em nossa capacidade de criar e realizar!

Te faço um desafio. A partir de hoje, quando você conhecer alguém, depois de perguntar o nome, você não pode dizer “onde você trabalha?” ou “o que você faz?” (que é “onde você trabalha”, disfarçado). E aí? O que você perguntaria?

É sério. O que você perguntaria?

Eu pergunto “o que você conquistou na sua vida que te deu mais orgulho?”. Ah, sim… é um pouco excêntrico. Mas eu descubro cada vez mais que, com um pouquinho de atenção, as pessoas encontram uma relação bonita com o bom Trabalho e com sua capacidade de produzir, sem falar em sofrimento e enxergando as cores do sucesso e da realização que elas tanto merecem.

Pode testar. Você vai se surpreender.

Um abraço. E bom Trabalho!

Alexandre Pellaes
Palestrante
Pesquisador e transformador do mundo do Trabalho
Especialista em modelos e práticas flexíveis de Gestão Compartilhada – Sociocracia, Holocracia, Management 3.0, Beta Codex e outras.
Sócio da 99jobs.com
Fundador da Exboss Desenvolvimento de Pessoas e Organizações.

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