Cientistas descobriram que a navegação dos pombos-correio pode estar relacionada a células especializadas localizadas no fígado dessas aves. Essa descoberta, publicada na revista Science, oferece novas perspectivas sobre a magnetorrecepção, a habilidade de detectar o campo magnético da Terra, um mistério que intrigava a ciência há mais de um século.
Historicamente, a pesquisa focou em órgãos como olhos e ouvidos, considerados os mais evidentes para a detecção magnética. No entanto, o estudo da Universidade de Bonn revelou que os macrófagos – células que normalmente ajudam a decompor glóbulos vermelhos – desempenham um papel crucial na capacidade de navegação dos pombos. Esses macrófagos, que acumulam ferro, foram encontrados em altas concentrações no fígado, próximos a fibras nervosas, indicando uma possível comunicação entre eles e as células nervosas. Clivia Lisowski, a imunologista responsável pela pesquisa, destaca a importância dessa descoberta e sua relação com a orientação dos pombos.
Para testar essa hipótese, pesquisadores treinaram 34 pombos em uma rota de 19 quilômetros nos Alpes alemães, desativando os macrófagos do fígado em parte das aves. Os resultados foram claros: em dias nublados, os pombos que tiveram os macrófagos desativados não conseguiam retornar para casa. No entanto, em dias ensolarados, eles mantinham sua capacidade de orientação, utilizando o Sol como guia. A conclusão é de que o fígado é vital para a navegação magnética, enquanto sinais visuais servem como complemento.
Essas descobertas sugerem que os pombos utilizam duas fontes de informação para se orientar. Martin Wikelski, diretor do Instituto Max Planck de Comportamento Animal, reafirma que o entendimento sobre magnetorrecepção evoluiu significativamente, embora existam especialistas que insistem na teoria de que as aves usam moléculas fotossensíveis nos olhos para detectar o campo magnético. A diversidade de opiniões indica que pode haver múltiplas explicações para a habilidade de navegação das aves, com a possibilidade de que diferentes mecanismos sejam ativados dependendo do contexto.
Os pesquisadores Simon Spiro e Hal Drakesmith notam que as duas teorias podem coexistir, sugerindo que um mecanismo pode ser mais relevante para longas distâncias, enquanto outro seria ideal para localizar destinos específicos. O futuro da pesquisa inclui investigar se outras espécies, como tartarugas marinhas e baleias-cinzentas, utilizam sistemas semelhantes. A busca por entender quais vias nervosas transmitem sinais do fígado para o cérebro, bem como as regiões cerebrais envolvidas nesse processamento, ainda é um desafio a ser enfrentado.
Essa pesquisa não apenas avança o entendimento sobre a magnetorrecepção, mas também abre novas possibilidades para estudos sobre outras espécies que podem contar com mecanismos de navegação semelhantes. O impacto dessas descobertas é significativo, considerando a complexidade dos sistemas naturais e a sua adaptação ao ambiente.
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