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O Voo Livre traz 5 lições valiosas para empreendedores

Neste ano o Brasil foi destaque internacional com um tema que movimentou o mundo todo: o esporte. Embora este assunto pareça distante do dia a dia das corporações, a força de vontade e o espírito de superação oriundos do esporte são elementos essenciais, principalmente para enfrentar este momento de grandes conflitos e desafios que o País vive com a crise político-econômica. Em meio a este cenário, em que os principais executivos do Brasil estão transpondo barreiras para que as empresas continuem a crescer e os empreendedores estão receosos em arriscar em um mercado instável, o Voo Livre pode inspirar com importantes lições.

A maioria das pessoas que já praticaram o esporte descrevem um sentimento único, que é a liberdade do voo. Da mesma forma, o lançamento de um produto ou a abertura de uma nova empresa, também remetem a sensação especial da decolagem. O futuro do projeto está em suas mãos, por isso a importância de lidar com as incertezas do mercado, os ventos laterais, as mudanças repentinas e a gestão do risco.

Mas o que o Voo Livre tem a ensinar aos empreendedores? O renomado palestrante e fundador da empresa GC-5 Soluções Corporativas, Glauco Cavalcanti, que também é piloto de asa delta há 21 anos, utiliza sua experiência no universo esportivo para dar importantes dicas aos empreendedores. Confira:

1 – Decolagem

Decolar é um dos momentos mais difíceis na vida de um empreendedor, pois terá que abandonar o porto seguro para alcançar seus objetivos em terras distantes. A transição da terra para o ar envolve uma grande dose de desapego e coragem. No solo estamos firmes e seguros, mas quando nos lançamos no ar, passamos por um meio de incertezas, onde ventos, correntes e montanhas passam a ser oportunidades e ameaças. Na hora da decolagem muitos questionamentos surgem na mente do atleta corporativo: será que estou pronto para lançar este produto? Será que o mercado está favorável? Será que deveríamos fazer mais pesquisas? Fecho negócio? Decolo agora?

Decolar significa aceitar sua natureza empreendedora, disposta a voar alto e longe. Neste sentido é importante gerenciar o estresse e controlar o sentimento de medo que sempre estará presente dentro de nós. O medo poderá congelá-lo e se fazer presente como uma sombra que acompanha seus passos. Mas, às vezes, servirá como um amigo que aconselha a não seguir o caminho perigoso e evita que assumamos riscos desnecessários.

2 – Segurança

Quando alguém escolhe ser um piloto de asa delta ou um empreendedor, precisará lidar com um alto grau de incerteza, mas isso não quer dizer que irá correr riscos desnecessários. Um dos primeiros critérios para a tomada de decisão deverá ser a segurança. Nenhum indivíduo, independente da atividade que exerça, está absolutamente seguro pelo simples fato de não ser possível ao ser humano ter certezas tão absolutas. O que existe é a ideia ou a ilusão de certeza absoluta.

Portanto, partindo da visão da impossibilidade do absolutismo, a segurança é uma construção necessária de cada profissional, mas preocupação, ansiedade, medo e insegurança estarão presentes em muitos momentos da vida corporativa ou atlética, principalmente na hora da decolagem. Uma das recomendações para mitigar tal situação é considerar o longo prazo, ou seja, embora as escolhas afetem o momento atual, contextualizar num espaço de tempo maior poderá ajudar o atleta corporativo diante das pressões externas e internas.

Um dos maiores ensinamentos do voo livre em termos de segurança está ligado ao modelo mental da repetição sistemática no longo prazo. Se um piloto puder repetir aquela manobra ou aquela atitude diversas vezes em um longo período, então ela é segura. Do contrário é uma atitude perigosa com baixo grau de segurança e, por isso, deve ser evitada. O risco está apenas na decolagem porque após saltar, o voo será excelente. No entanto, se utilizarmos o modelo mental que maximiza a segurança, surge o seguinte questionamento: “se eu repetir esta atitude, decolando em dias com vento lateral nos próximos vinte anos, será que sempre serei bem-sucedido? Será que vou conseguir decolar bem todas as vezes? ”. Se a resposta for não, então fica evidente que a melhor escolha é não decolar naquela condição. Só devemos decolar se pudermos repetir aquela ação inúmeras vezes. Estamos lidando com estatística e, quanto menor a margem de segurança em cada evento, maior a possibilidade de que um acidente aconteça.

3 – Excesso de Confiança

O excesso de confiança é nocivo tanto na medida em que leva o indivíduo a distorcer a percepção sobre si mesmo, quanto a negar fatos importantes. No voo livre este excesso de confiança é chamado de “síndrome do piloto avançado” e ocorre quando o piloto perde a referência da realidade e das próprias limitações diante da natureza. Neste momento, o acidente passa a ser uma questão de tempo e algo provável do ponto de vista estatístico.

O mesmo poderá ocorrer com um empreendedor quando tem excesso de confiança e passa a acreditar que suas habilidades preditivas estão acima da média. Comumente isso ocorre no mundo corporativo, assim como no mercado financeiro, quando alguém que obteve um sucesso prematuro acaba criando um “padrão mental” para escolhas futuras, apoiando-se na ilusão do talento. Por exemplo, se um investidor iniciante realizar lucro no momento em que o mercado estiver em alta, poderá criar para si – e para os outros – um valor excessivo dos atributos que possui, nascendo, assim, o excesso de confiança. Este é o momento em que os riscos podem aumentar, já que uma autoconsideração excessiva acarretará em perda. Do ponto de vista corporativo, um empreendedor sobreviverá, na medida que desenvolver este senso de equilíbrio.

4 – Análise da Condição de Voo

A natureza se organiza de forma caótica, mas dentro deste caos existe uma lógica a ser seguida. Da mesma forma, um empreendedor precisa compreender a lógica do mercado para obter uma vantagem competitiva. Podemos considerar que as linhas de nuvens são como as tendências de mercado, quando o empreendedor a compreende e navega na linha adequada, ele ficará na zona ascendente. No entanto, empreendedores que não percebem os sinais da natureza dos mercados e navegam entre as linhas ficarão posicionados na zona de descendente. Devemos sempre compreender quais são as tendências, qual sua direção e quem são os maiores “players” a fim de nos posicionarmos no melhor local da zona ascendente.

Muitos pilotos se fixam no cenário presente e esquecem que o céu está em profunda transformação. Por isso, não importa o cenário que se apresenta naquele dado instante, e sim, qual a configuração daquelas nuvens dentro de alguns minutos ou horas. Ninguém voa parado, e sim, em movimento. Desta forma, devemos projetar um cenário futuro para que possamos nos posicionar. O processo decisório exige uma dose de previsão, caso contrário, deixamos tudo ao acaso e ficamos reféns do destino. Aqui cabe a máxima: se você não sabe para onde vai, qualquer lugar serve.

5 – Voando em Tempos de Crise

Em tempos de crise, o chamado “efeito manada” toma conta das pessoas. Existe uma enorme carência por liderança e, quando ela surge, todos seguem aquele caminho sem questionar se é uma liderança é boa – positiva ou ruim – negativa.

Crise é uma descontinuidade da ordem anterior, um momento de quebra entre o antigo e o novo. É um período de transição que vai dar espaço a uma nova dinâmica dos mercados. O mundo passou, no último milênio, por acelerado processo de mudança, fruto de grandes crises que abalaram os mercados. Todos estes eventos geraram uma nova ordem mundial, uma nova forma de ver o mundo e exigiu dos empreendedores alto grau de adaptabilidade. Mudar não só é preciso, como necessário para sobrevivência em mercados dinâmicos.

Vale neste momento entender que ter atitude é importante em tempos de crise, no entanto, esta atitude deve estar atrelada a um alto grau de percepção do cenário. Lembrando sempre que a natureza dos mercados está a todo instante se comunicando, cabe ao empreendedor escutá-la com atenção antes de tomar decisão do caminho a ser seguido.

 

Glauco Cavalcanti é fundador da empresa GC-5 Soluções Corporativas e autor do livro ‘Decolando para o Futuro’, juntamente com a consultora Márcia Tolotti. Foi nomeado quadro de honra pela FGV (Fundação Getúlio Vargas) por ter sido eleito por 5 anos consecutivos no ranking nacional de melhor professor de negociação. É PhD pela Florida University, Mestre em Gestão Empresarial pela FGV, MBA em Marketing pela FGV e Bacharel em Administração pela PUC-RJ. Possui curso de especialização em Negociação pela Harvard Law School e é piloto de asa delta há 21 anos, especializado em voos de longa distância.

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