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​O verdadeiro motivo pelo qual você nunca verá um carro nuclear nas ruas – TecStudio

Em tempos de guerra e oscilações na economia global, você provavelmente já se pegou pensando se o seu UNO quadrado poderia rodar em um motor proveninente de energia nuclear, não é mesmo!? Além disso, você também provavelmente já escutou de algum amigo ou familiar que veículos nucleares não são feitos por que afetariam o lobby dos combustíveis fosséis e o “sistema”…

A grande questão é que o carro nuclear é ideia de maluco. “Ah, mas por que então temos usinas nucleares e submarinos nucleares, mas por que não carros nucleares?” A resposta é simples, mas para chegar nela, precisamos entender o que acontece de fato em um reator nuclear que movimenta uma usina ou um submarino militar.

O reator nuclear

Se você já assistiu aos filmes do Homem de Ferro, deve saber que no peito do herói de lata existe um reator nuclear. É dali que sai toda a energia necessária para a armadura que dá vida ao personagem icônico da Marvel.

Mas um dos motivos pela qual não temos armaduras do Homem de Ferro voando por aí é, em primeiro plano, o fato de que o reator nuclear NÃO é a fonte direta de energia, nem mesmo para uma usina nuclear, mas sim a fonte primária.

Como assim fonte primária? O reator nuclear gera energia na forma de calor, por meio da fissão nuclear. Se você não sabe o que é fissão nuclear, entenda que isso é basicamente um átomo se partir ao meio. Em outras palavras, se transformar em outros átomos por que “se quebrou”.

Esse processo libera uma energia tão grande, sobretudo quando ocorre de forma desordenada, que é a chamada fissão em cadeia. A partir daqui, temos dois caminhos; o reator nuclear para fins de energia ou uma bomba nuclear. O princípio é o mesmo; energia na forma de calor.

Por isso, sim! Para um homem de ferro real “funcionar”, precisaríamos que o Arc reactor do peito dele fosse ligado a um sistema que conseguisse converter a energia térmica gerada pelo reator em energia elétrica. Mas isso não cabe em uma caixinha de música, nem mesmo em uma armadura de ferro para humanos. Muitas vezes, isso é papo de salas gigantes e maquinário pesado.

Nas usinas nucleares, essa energia térmica liberada pelo reator é transformada em energia mecânica por meio do vapor da água que passa pelo reator. A temperatura ali é tão alta, que a água evapora e é processada para turbinas gigantes, estabilizada e, no fim do fluxo, com a força mecânica resultante, movimentar os imãs que vão transformar a energia mecânica em energia elétrica por meio da corrente elétrica induzida.

Agora imagine seu carro, um UNO quadradão, com um reator nuclear… não basta só isso, você também precisaria de todo um conjunto de sistemas que vão captar essa energia térmica e transformá-la em energia mecânica para dar vida ao motor do carro. Mas isso não seria tão impossível assim… Porém, temos um grande problema…

Submarino nuclear
Imagem: Reprodução Wikimedia Commons. Esquemático de um sistema de propulsão proveniente de fontes nucleares em um submarino. Note como a complexidade toma grande parte da área da embarcação.

O grande problema que goiânia explica…

Um submarino nuclear, uma usina nuclear e até mesmo o Arc Reactor do homem de ferro compartilham uma regra muito importante na física nuclear: rejeitos radioativos devem ser cuidadosamente manuseados por pessoas capacitadas, armazenados com proteção máxima e completamente restritos ao público em geral.

E isso não é só por capricho… Por uma cápsula encontrada e falta de conhecimento do que estava ali, Goiânia viu o inferno radioativo acontecer quando um elemento restrito chega nas mãos de pessoas que não deveriam ter acesso.

Agora vamos pensar em São Paulo… Imagine que, para cada carro rodando na Av. Paulista durante um dia, você precise de pelo menos um reator nuclear com uma fonte nuclear (geralmente urânio enriquecido). Suponha que 20 mil veículos passem pela Paulista entre 7h e 20h. Teríamos 20 mil fontes ambulantes de elemento radioativo circulando de um lado para o outro, no meio de uma centena de milhares de pessoas que circulam por ali, além do risco real das pessoas violarem o reator e o utilizarem para outros fins…

Ainda que a blindagem seja feita de forma quase inviolável, colocar em borda elementos radioativos e também um reator nuclear, pode repetir não só Goiânia, mas também o risco de uma Chernobyl.

Pensando um pouco mais no risco, imagine um carro nuclear pegando fogo em uma mesma Av. Paulista? Esse veículo muito provavelmente iria causar uma fissão nuclear desordenada e pásmem, se transformar em uma bomba nuclear levando a cidade inteirinha para o inferno em poucos segundos.

Imagem: Reprodução Wikimedia Commons. Fissão nuclear de um átomo de Urânio 236.

O fato é: civis devem ficar longe de elementos radioativos e reatores nucleares

Não se desenvolve um carro nuclear por uma obviedade. Um submarino militar é um caso muito diferente; é um braço de poder do Estado, é controlado por pessoas estritamente preparadas. É uma máquina robusta, possui diversas camadas de segurança e protocolos específicos. Além disso, são restritos ao mar e à atividade militar. Isto é, não estarão, de forma alguma, no meio da Av. Paulista.

“Ah, mas existe um reator nuclear dentro da USP e outro dentro da UFMG”.. Sim! Mas restritos às instituições Federais e com pessoal estritamente capacitado, com inúmeras camadas de segurança para manuseio e acesso controlado. Isso é muito diferente do que permitir que pessoas comuns possam ter um dispositivo desses em seu carro.

O acidente nuclear com o Cesio-137 em Goiânia é só mais um dos diversos exemplos de como elementos radioativos “em borda” podem ser perigosos e letais.

E não… energia de um reator nuclear não é infinita, ele precisa de combustível… e o combustível é radioativo!

Imagine agora você chegando com seu UNO quadrado nuclear em um posto da Nucleobras… “Eaí mano, bom demais? Coloca 50g de urânio enriquecido a 5% aí pra mim, vou passar no crédito”. Pois é… um outro grande problema de se ter energia nuclear em borda, é que ela precisa de combustível. E esse combustível é finito, e claro, radioativo.

Nas usinas nucleares, se usa urânio enriquecido em cerca de 5%. Nas bombas nucleares, se usa urânio enriquecido em pelo menos 80%. Na atividade das usinas, esse urânio, bem como as chapas que os separam no reator, são desgastados e demandam de troca, mas levam centanas de anos para deixarem de ser radioativos.

Fora isso, ainda tem o risco de urânio cair nas mãos erradas. Disso nem precisamos elaborar, certo!?

O fato é: nada de carro nuclear

Agora que você já entendeu o problema, compartilha com aquele seu amigo que ainda sonha em andar em um UNO escadinha nucelar versão 2029.


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