Data centers estão se expandindo pelo Brasil, mas essa realidade traz à tona a necessidade urgente de um planejamento adequado e de regras claras que assegurem benefícios à sociedade, ao mesmo tempo em que minimizam impactos socioambientais. Em um debate recente em Niterói, pesquisadores destacaram os riscos e as oportunidades associados à instalação dessas grandes estruturas, especialmente no contexto da crescente demanda por serviços e processamento de dados.
Os professores Mauro Oliveira, do Instituto Federal do Ceará (IFCE), e Dan Levy, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), foram enfáticos ao afirmar que a entrada de data centers no Brasil precisa ser acompanhada de políticas públicas efetivas e de uma participação mais ativa da comunidade científica. Para Oliveira, o país deve evitar a repetição de uma lógica histórica de exploração de recursos naturais sem garantir contrapartidas realmente significativas para o desenvolvimento nacional.
“A questão não é só receber data centers. É essencial que esses investimentos venham acompanhados de negociações certas”, argumentou Mauro, ressaltando que o Brasil precisa definir claramente quais exigências deve impor em troca desses empreendimentos. Ele também criticou a atual falta de diálogo em torno do tema, que se restringe a poucos setores, e enfatizou a importância de uma mobilização que inclua universidades, governo e a sociedade.
A instalação de um grande data center voltado para inteligência artificial no Ceará é um exemplo crítico. Este projeto, com previsão de consumo de cerca de 300 megawatts, por si só, pode atender a demanda de milhões de pessoas. No entanto, o pesquisador alertou que o mundo, atualmente, enfrenta sérios desafios na produção de energia suficiente para acompanhar a crescente demanda dos data centers, especialmente os focados em inteligência artificial.
Além dos altos índices de consumo de energia, Oliveira fez um apelo para que o Brasil implemente sistemas permanentes de monitoramento e auditoria, além de garantir transparência nas informações relacionadas a esses projetos. “As universidades devem estar no centro desse debate, porque não somos contrários aos data centers, mas sim à ausência de diálogo sobre as condições em que estão sendo implementados”, afirmou.
A discussão se ampliou com Levy, que destacou que os impactos dos data centers vão além do consumo de água e energia. Ele enfatizou que é crucial considerar efeitos como poluição sonora, pressão sobre recursos naturais, desigualdades sociais e riscos para comunidades vulneráveis. Para ele, a transição digital deve ser integrada à transição ecológica, com um compromisso com a sustentabilidade e a participação social.
Levy também mencionou que as comunidades afetadas diretamente precisam ser incluídas nas decisões acerca da implantação desses centros, e não apenas suportar os impactos. Ele fez uma analogia provocativa ao associar a expansão desses empreendimentos ao conceito de colonialismo digital, onde países do Sul Global fornecem recursos naturais e infraestrutura para atender às demandas de grandes corporações do Norte Global.
A discussão sobre os data centers e suas implicações é fundamental, não só para o setor de tecnologia, mas para a sociedade como um todo. Um planejamento cuidadoso pode assegurar que o Brasil não apenas atraia investimentos, mas também os gerencie de forma a promover um desenvolvimento mais equitativo e sustentável.
Crédito da imagem: divulgação/reprodução

