O crescimento dos veículos elétricos e híbridos no Brasil representa um avanço significativo em direção à mobilidade sustentável, mas traz consigo um desafio crítico: maximizar a vida útil das baterias, essenciais para o desempenho desses automóveis. Dados recentes indicam que as vendas de modelos eletrificados atingiram 215.023 unidades na primeira metade deste ano, um impressionante aumento de 125% em relação ao mesmo período do ano anterior. Apesar desse progresso, a falta de um padrão técnico confiável para avaliar a saúde das baterias gera insegurança na compra e venda de veículos usados.
A preocupação com a transparência no mercado é compartilhada por Gerson Barbosa, fundador e CEO da AE Volt Brasil. Segundo ele, a escassez de informações acessíveis afeta a confiança dos consumidores, dificultando o desenvolvimento de um mercado de seminovos elétricos. A introdução de um diagnóstico padronizado poderia transformar essa realidade, oferecendo garantias reais aos compradores. Ele exemplifica: “Em nossa rede, já vimos veículos de aparências idênticas apresentando 98% e 63% de saúde de bateria. Sem um laudo, ambos poderiam ser vendidos pelo mesmo valor, mas um dos compradores sairia prejudicado.” Com a implementação de laudos de saúde da bateria, a transparência do mercado se eleva, permitindo que vendedores precifiquem de maneira justa e compradores decidam com segurança.
O processo de diagnóstico realizado pela AE Volt Brasil é inovador e dinâmico. Utilizando um dispositivo conectado à porta OBD (On-Board Diagnostics) do veículo, o sistema coleta e analisa dados da bateria em apenas 60 segundos. O resultado é um laudo que oferece informações essenciais sobre o estado de saúde (State of Health – SoH) e outros parâmetros relevantes. Este serviço já está disponível em uma rede de concessionárias e lojas, podendo ser acessado também por proprietários que buscam avaliar a condição de seus veículos.
A saúde das baterias não diz apenas respeito ao valor de mercado, mas também tem implicações ambientais significativas. Segundo Victoria Luz, responsável pela tecnologia na AE Volt Brasil, decisões informadas têm o potencial de evitar trocas prematuras de baterias. Isso é crucial, pois a fabricação dessas baterias envolve a extração de recursos como lítio e cobalto, que demandam grandes quantidades de energia. “Quando o laudo indica que uma bateria mantém, por exemplo, 85% da capacidade original, não faz sentido técnico trocá-la. A medição regular deve se tornar um padrão, assim como um check-up médico. Isso não apenas preserva a saúde das baterias, mas também reduz a geração de resíduos de alto impacto,” afirma Victoria.
Adicionalmente, o diagnóstico pode favorecer a economia circular ao determinar quando uma bateria já não é adequada para uso em veículos, mas ainda pode ser aplicada em sistemas de armazenamento de energia. Sem essa abordagem orientada por dados, o conceito de economia circular fica apenas no discurso, enquanto a triagem correta assegura que cada bateria seja reutilizada de maneira eficaz. Além disso, a plataforma utiliza inteligência artificial para criar uma base de dados que pode auxiliar em decisões sobre manutenção, reutilização, reciclagem e até seguros para veículos eletrificados.
Em um esforço para consolidar sua posição no mercado brasileiro, a AE Volt Brasil firmou parceria com a francesa MOBA, que oferece tecnologia certificada pelo padrão europeu CARA Approved Battery Health Check. A empresa já investiu R$ 5 milhões em suas operações, com planos de distribuir inicialmente cerca de 130 equipamentos em diversas cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro. A meta é expandir para mil equipamentos em 15 estados até o final do ano. Essa estruturação proposta evoluirá com o tempo, criando uma rede técnica especializada em capitais importantes.
Especialistas afirmam que a expansão da mobilidade elétrica no Brasil não dependerá apenas da infraestrutura de recarga, mas de ferramentas que possibilitem o monitoramento das baterias ao longo de seu ciclo de vida. A rastreabilidade deve se tornar um requisito fundamental, seguindo tendências globais como o passaporte digital de baterias, já adotado na Europa. Barbosa enfatiza que a transparência é vital para o futuro do mercado, destacando que os consumidores brasileiros, embora receptivos à ideia elétrica, ainda hesitam em razão do desconhecido. “A transparência é o caminho para derrotar a insegurança”, conclui.
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