As exportações chinesas de tecnologias de energia limpa podem evitar anualmente cerca de 450 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO₂) fora do território chinês, conforme prevê um estudo do Centre for Research on Energy and Clean Air (CREA). Este volume é similar às emissões anuais fósseis do Brasil e equivale a cerca de 2% das emissões totais ano do restante do mundo. Apesar dessa projeção, é importante ressaltar que esse número reflete o que deixaria de ser emitido se esses equipamentos funcionarem conforme o esperado, e não a quantidade já retirada da atmosfera.
Equipamentos na mira
A análise do CREA considera um mix de tecnologias como painéis solares, turbinas eólicas, veículos elétricos e baterias que serão exportados pela China até 2026. O cálculo considera a eletricidade gerada por esses equipamentos e a comparação de uso de combustíveis fósseis com veículos de combustão interna equivalentes. Se a tendência de exportação atual continuar, especialmente nos últimos meses, as emissões evitadas em 2026 seguirão numa linha crescente.
Nos primeiros nove meses do ano, as exportações de carros elétricos e veículos pesados aumentaram 61% em relação ao mesmo período do ano anterior, enquanto as vendas de turbinas eólicas e baterias cresceram 45% e 39%, respectivamente.
O impacto no futuro
Além da estimativa anual, o estudo projeta que ao longo da vida útil dos equipamentos exportados, o total de CO₂ que poderá deixar de ser emitido pode alcançar 8,4 bilhões de toneladas. Essa previsão considera que painéis solares e turbinas eólicas têm uma vida útil de cerca de 20 anos, enquanto veículos elétricos e baterias funcionariam por aproximadamente 10 anos. Os veículos elétricos de duas rodas apresentam uma expectativa de uso menor, de cerca de 5 anos.
Como a energia solar se destaca
A energia solar é a principal responsável por essa projeção, com dados indicando que, em 2025, a China exportou equipamentos solares equivalentes a 436 gigawatts de capacidade. Juntamente só com turbinas eólicas, essa quantidade poderia gerar cerca de 720 terawatts-hora de eletricidade anualmente em países importadores.
Para 2026, o potencial de geração de energia solar e eólica a partir dos equipamentos exportados é estimado em 800 terawatts-hora por ano, o que pode ser comparável à produção de cerca de 100 usinas movidas a carvão. Isso, porém, depende de como os países importadores operam suas redes elétricas e as fontes de energia que a nova geração substituirá.
O Sul Global como maior beneficiário
O levantamento revela que até 76% das emissões evitadas ao longo da vida útil dos equipamentos ocorrerão em países do Sul Global, com o sul e sudeste da Ásia respondendo por 52% do total. Essa tendência se deve à combinação de um alto volume de equipamentos enviados para essas regiões e suas redes elétricas, que historicamente dependem mais de combustíveis fósseis, além das condições favoráveis para a produção de energia solar.
Custos da produção e sustentabilidade
É crucial notar que a fabricação dos equipamentos também gera emissões de CO₂. Em 2025, a produção dos itens exportados pela China está estimada em cerca de 170 milhões de toneladas de CO₂, enquanto o uso dos equipamentos pode evitar 370 milhões de toneladas nos países destinatários. Assim, a economia líquida de emissões ocorreria cerca de seis meses após o início da operação desses equipamentos.
Oportunidades e desafios do cenário comercial
A crescente atuação da China como fornecedora de tecnologias para a transição energética solidifica seu papel central nesse setor. As exportações chinesas de tecnologias limpas, que superaram US$ 165 bilhões em 2025, representam cerca de metade do mercado global quando as transações dentro da União Europeia são excluídas.
Por outro lado, essa posição dominante também implica riscos, como a dependência de cadeias produtivas e as tensões comerciais que podem surgir entre países que buscam proteger seus próprios mercados contra a concorrência chinesa.

