Nos últimos quatro anos, a presença dos carros elétricos no Brasil passou por uma transformação significativa. Enquanto em 2022 foram emplacados apenas 8.460 veículos totalmente elétricos, entre janeiro e setembro de 2026, esse número disparou para 165.820 unidades, quase 20 vezes o total de 2022. Essa mudança reflete a crescente aceitação e demanda por veículos elétricos, impulsionada em grande parte por fabricantes chinesas.
Influência das montadoras chinesas
Marcas como BYD, Geely e GAC têm conquistado rapidamente o mercado brasileiro com preços competitivos e equipamentos avançados. Em setembro de 2026, a BYD sozinha representou 64,4% dos emplacamentos de veículos elétricos no Brasil, seguida pela Geely com 14% e pela GAC com cerca de 8%.
Impacto no mercado automotivo brasileiro
Essa expansão gerou debates sobre o futuro da indústria automotiva no Brasil. Com a oferta de mais opções de elétricos, as montadoras locais se questionam sobre os efeitos das importações e o desafio de se manter competitivas frente às marcas que estão entrando no mercado.
Ciclos de transformação no setor
A trajetória das montadoras chinesas no Brasil pode ser dividida em quatro ciclos. O primeiro início em 2010, quando marcas como JAC Motors e Chery tentaram entrar no mercado com carros a combustão e enfrentaram resistência devido à falta de familiaridade do consumidor. Ao longo do tempo, a partir de 2023, a estratégia mudou com a chegada de modelos como o BYD Dolphin, oferecendo preços mais acessíveis, como R$ 149.800, que abrem novas possibilidades para consumidores que, antes, viam os elétricos como restritos à alta renda.
A partir de 2025, as fabricantes chinesas começaram a estabelecer operações industriais no Brasil, em resposta ao aumento do imposto de importação sobre elétricos, que chegou a 35% em julho de 2026. A BYD, por exemplo, inaugurou sua fábrica em Camaçari, na Bahia, montando modelos como o Dolphin Mini.
A competição acirrada
Atualmente, a BYD, embora ainda líder, enfrenta uma concorrência crescente de outras montadoras chinesas no Brasil. Em setembro de 2026, a venda de elétricos continua forte, com 22.246 unidades emplacadas, evidenciando uma disputa interna entre marcas chinesas e também com fabricantes tradicionais, como Chevrolet e Toyota, que perderam participação significativa no mercado.
Desafios para a indústria e consumidores
Os desafios não se limitam à competição de mercado. Existe preocupação quanto à dependência de componentes importados e à capacidade do Brasil de desenvolver a manufactura local em resposta à crescente demanda. A reinvenção da cadeia produtiva, que se centra agora em baterias e sistemas eletrônicos, é crucial para assegurar que o crescimento das vendas não se traduza apenas em importações, mas também em produção local capaz de gerar empregos e inovação.
Para o consumidor, os benefícios da abertura do mercado são claros: uma maior diversidade de opções e preços mais acessíveis para veículos elétricos. Entretanto, a desigualdade na infraestrutura de recarga ainda representa um obstáculo, e o pós-venda se torna um elemento crítico para as novas marcas que tentam firmar sua presença no Brasil.
Enquanto a indústria automotiva brasileira enfrenta um momento de transformação com a chegada das montadoras chinesas, a real questão em jogo será como essa expansão influenciará o desenvolvimento local e se o país conseguirá converter essa oportunidade em crescimento sustentável.

