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Roteiristas de Hollywood entram em greve: veja o que muda

A Writers Guild of America (WGA), entidade que negocia os direitos trabalhistas de roteiristas de shows e séries nos Estados Unidos, declarou o início de uma greve geral dos seus profissionais, após – afirma a associação – “negociações falhadas” com a Aliança de Produtores de Televisão e Cinema (AMPTP), a sigla que representa os interesses das empresas.

A AMPTP tem em seu plantel companhias grandes, como Netflix, Amazon, Apple, Disney, Discovery-Warner, NBC Universal, Paramount e Sony. De acordo com o comunicado da WGA, as empresas “criaram uma ‘economia de bicos’ dentro de uma força de trabalho sindicalizada. Elas fecharam as portas para os trabalhadores e permitiram que a criação de roteiros virasse uma profissão inteiramente freelancer. Nenhum acordo poderia ser contemplado dentro deste formato.”

Imagem: rblfmr/Shutterstock

Com a greve confirmada, toda e qualquer produção relacionada a shows recorrentes (como programas diários e talk shows) ou ainda em desenvolvimento (como séries ainda em produção ou novas temporadas) ficam automaticamente paralisadas. Com isso, programas como The Late Show with Stephen Colbert, The Tonight Show Starring Jimmy Fallon e Jimmy Kimmel Live! passarão reprises, já que novos episódios não serão produzidos.

Os três apresentadores já afirmaram no passado o seu apoio à WGA. Seth Meyers, apresentador de um show noturno similar, não disse o que será feito de seu programa durante a greve, mas ele já declarou apoio aos grevistas, que aprovaram a paralisação em votação com 98% de opiniões a favor.

Já séries ainda em fase de produção terão suas atividades paralisadas, o que pode impactar o calendário de lançamentos – as produtoras de tais séries podem até procurar freelancers para contemplar a demanda, mas considerando que essa é uma das pautas em reclamação pela associação, não seria estranho se a prática fosse repensada por enquanto.

Há também impactos fora da indústria mainstream do entretenimento: sites estrangeiros bem famosos, como o Polygon, têm participação na WGA – o Polygon, especificamente, é uma das propriedades da Vox Media, que é representada pela associação trabalhista. Eles não informaram se a greve vai impactá-los de alguma forma, mas considerando o volume de podcasts que o site produz, é provável que sim.

A WGA divulgou sua lista de exigências, afirmando que as produtoras se recusaram a negociar sobre elas. Tais pedidos incluem regulamentação de recursos de inteligência artificial (IA), aumento de remunerações e residuais, salas dedicadas para roteiros que trabalhem presencialmente, ampliação de atendimento de planos de saúde.

Segundo o comediante Adam Conover, apoiador da greve, no Twitter, as empresas retornaram as ideias com contrapropostas “indiscutíveis”, como leniências para trabalhos não remunerados ou corte sem aviso prévio de salas dedicadas (o que implica em demissões ou precarização de condições de trabalho). “Elas não quiseram nem sentar para discutir e ofereceram apenas ‘reuniões educacionais’”.

A AMPTP lançou um comunicado próprio, afirmando uma “proposta compreensiva de pacote”, contemplando coisas como “aumentos generosos de remuneração para roteiristas bem como melhorias de pagamento residual de streaming”. Um ponto, no entanto, foi rechaçado: o uso de “mini salas de roteirização” que, segundo os roteiristas em greve, implicam em “dois ou três profissionais” que fiquem fixos nos locais de produção, auxiliando diretores e showrunners a escreverem material a um pagamento reduzido, pouco antes de uma série receber o sinal verde.

A proposta dos grevistas prevê uma sala completa, com pelo menos seis roteiristas, a compensações fixas e obedientes ao mínimo estabelecido pela indústria.

Uma situação amplamente similar ocorreu há 15 anos: ao final de 2007 e início de 2008, a mesma WGA fez exigências muito parecidas às empresas do setor. Na ocasião, também houve aprovação virtualmente unânime pela paralisação – pouco mais de 92%. Naquela época, a greve durou cerca de 15 semanas, e custou à indústria algo perto de US$ 1,5 bilhão (R$ 7,56 bilhões).

Nesta greve (a segunda da história da WGA, sendo a primeira em 1988), a resolução veio quando as empresas do setor acataram a maior parte das reivindicações da associação. Considerada uma grande vitória para os grevistas, a greve de 2008-08 levou a novas regulamentação de mídia hoje consideradas importantes – sobretudo às “novas mídias” da época, como as empresas de streaming e vídeo sob demanda (VOD).




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